México. Há um parasita a afetar turistas e nem os resorts de luxo escapam

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Foram registados 67 casos de ciclosporíase em viajantes britânicos regressados do México desde abril. O parasita transmite-se pela comida e pela água e nem os resorts estão a salvo.

A UK Health Security Agency, em conjunto com as autoridades de saúde pública da Escócia e do País de Gales, divulgou a 30 de julho um aviso sobre o aumento de infeções por Cyclospora em viajantes regressados do México. Entre 30 de abril e 15 de julho, foram notificados 67 casos no Reino Unido: 30 em Inglaterra, 27 na Escócia e 10 no País de Gales. A idade média dos doentes é de 46 anos e, nos casos em que essa informação estava disponível, 66% eram mulheres.

Havia informação sobre viagens em 52 dos casos. Destes, 48 tinham estado no México, um deles tendo também passado pelos Estados Unidos. Registou-se ainda um caso associado a viagem apenas aos Estados Unidos e outro ao Quénia. Em 28 casos foi possível reunir informação detalhada sobre o percurso, que aponta sobretudo para a região da Riviera Maya, com vários viajantes a referirem também Cancún. Ficaram alojados em hotéis diferentes e consumiram alimentos e bebidas variados dentro dos respetivos empreendimentos, ao abrigo de pacotes de férias em regime de tudo incluído.

O que é a Cyclospora?

Trata-se de um parasita protozoário que não ocorre naturalmente no Reino Unido e que pode provocar doença gastrointestinal grave. A transmissão faz-se pelo consumo de alimentos ou bebidas contaminados com fezes humanas infetadas, e não pelo contacto próximo com pessoas doentes. Os alimentos mais frequentemente associados são produtos frescos: frutos vermelhos, frutos com casca não descascada, alface, saladas verdes e ervas aromáticas como o coentro e o manjericão.

Nem todas as pessoas infetadas desenvolvem sintomas. Quando surgem, aparecem geralmente cerca de uma semana depois do consumo do alimento contaminado e incluem diarreia aquosa frequente, cólicas abdominais, inchaço, náuseas, gases, febre baixa, perda de apetite e de peso, cansaço e dores musculares. Na maioria dos casos a infeção é ligeira e resolve-se sozinha, mas os sintomas podem prolongar-se por várias semanas e reaparecer depois de a pessoa parecer recuperada. Pessoas com o sistema imunitário debilitado, incluindo quem vive com VIH, correm maior risco de doença grave. O diagnóstico faz-se pela análise de amostras de fezes e, nos casos severos ou prolongados, o tratamento recomendado passa habitualmente pelo cotrimoxazol.

Porque é que o alerta surge agora?

Surtos sazonais em viajantes britânicos regressados do México são reportados desde 2015, com exceção de 2020 e 2021, durante a pandemia. Os números anuais têm oscilado bastante: o valor mais alto foi registado em 2016, com 359 casos, e entre 2022 e 2025 a média situou-se nos 93 casos por ano. O ritmo deste verão está acima do que seria expectável para o período, e a UKHSA antecipa que os casos continuem a subir com o aumento das viagens de verão ao México e aos Estados Unidos, onde decorre em paralelo um surto multiestadual associado a alface iceberg de folha cortada proveniente do centro do México. A agência britânica está a articular-se com a ABTA e com as autoridades de saúde mexicanas para apoiar a investigação destes casos.

E em Portugal?

Não há, até ao momento, qualquer aviso específico das autoridades portuguesas sobre este aumento de casos. O Portal das Comunidades Portuguesas, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mantém apenas os conselhos habituais para quem viaja para o México: não é exigida qualquer vacina, as condições sanitárias são consideradas boas, mas recomenda-se beber água engarrafada, evitar comida vendida na rua e lavar bem a fruta e os legumes. É também aconselhado o uso de repelente, pelo risco de dengue, chikungunya e zika durante a época das chuvas, entre maio e novembro.

O aviso mais insistente do portal diz respeito ao seguro de saúde. Recomenda-se viajar para o México com uma cobertura o mais alargada possível, que inclua repatriamento ou evacuação médica, dado o custo elevado dos cuidados de saúde no país. Mesmo com seguro, é comum que os hospitais exijam o pagamento antecipado do tratamento por cartão de crédito, cabendo depois ao viajante pedir o reembolso à seguradora. O Ministério sugere ainda o registo da viagem na aplicação Registo Viajante, gratuito e voluntário, que dá acesso aos contactos das representações diplomáticas e liga diretamente ao Gabinete de Emergência Consular.

Como proteger-se

Não existe vacina contra a Cyclospora, pelo que a prevenção assenta nos cuidados com a alimentação e a água — e o TravelHealthPro, o portal do centro nacional britânico de saúde do viajante, sublinha que esses cuidados se aplicam mesmo a quem fica num hotel de luxo ou num resort de tudo incluído.

Antes de partir

  • Leve um kit básico de primeiros socorros com desinfetante para as mãos e saquetas de rehidratação oral. Saiba mais aqui.
  • Certifique-se de que tem um seguro de viagem abrangente.

Enquanto está no destino

  • Lave as mãos com frequência, com sabão e água limpa, e reserve o gel desinfetante para quando não for possível lavá-las.
  • Onde não houver garantia de água potável, beba apenas água engarrafada ou fervida — incluindo para lavar os dentes.
  • Evite gelo nas bebidas.
  • Evite produtos frescos que possam não ter sido lavados com água segura: frutos vermelhos, saladas, legumes crus e ervas aromáticas.
  • Prefira fruta que possa descascar, como bananas e laranjas.
  • Opte por lacticínios pasteurizados, em geral mais seguros.
  • Coma alimentos acabados de cozinhar e servidos bem quentes.
  • Tenha presente que batidos, sumos naturais e outras bebidas podem conter fruta, ervas ou legumes crus.

Se adoecer

  • Beba líquidos seguros em quantidade e recorra a soluções de rehidratação oral para não desidratar.
  • Procure ajuda médica se os sintomas forem intensos ou não melhorarem.
  • Se tem o sistema imunitário comprometido, procure aconselhamento médico desde cedo.
  • No regresso, se mantiver sintomas, informe o profissional de saúde de que viajou recentemente e indique todos os países por onde passou.

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