A Fly2Galicia apresentou-se a 17 de agosto e já vende bilhetes para oito destinos a partir de Santiago de Compostela: Saragoça, Alicante e Granada, em Espanha, e Bruxelas, Praga, Munique, Veneza e Milão, na Europa. As operações arrancam a 1 de dezembro, com um único Airbus A320, e as tarifas anunciadas vão dos 19€ (rotas nacionais) aos 49€ (Munique, Praga, Veneza), sempre com bagagem de cabina incluída.
A companhia chega ao aeroporto de Lavacolla um ano depois de a Ryanair ali ter fechado a base, deixando um vazio de voos baratos que a nova operadora quer aproveitar.
Há, no entanto, pormenores a considerar antes de comprar. A Fly2Galicia não é dona de nenhum avião: opera em regime de wet lease, fretando a capacidade de um A320 a um operador que, até agora, não foi identificado. A empresa promotora, a Aviation & Mobility Services Group, foi constituída em janeiro com um capital social de 1€ e sede num coworking em Santiago, e o seu responsável, o búlgaro Gueorgui Iavorov Popov, já tinha tentado lançar um projeto semelhante em Maiorca em 2022 — que nunca chegou a voar.
O projeto está, de resto, a gerar alguma polémica no setor. Óscar Regal, vice-presidente da associação de agências de viagens Agavi, resume o ceticismo: “temos muitas dúvidas sobre este projeto. Não vemos um projeto sólido que o respalde”. Regal questiona, por exemplo, o que aconteceria no caso de uma simples avaria do avião. No setor, o caso já foi comparado a outros projetos aéreos que nunca chegaram a descolar, como a Hispania Airways (Granada) ou a Canarian Airways.
Mas a polémica mais grave prende-se com quem vai operar mesmo os aviões: a FlyYo, companhia romena com forte atividade em Israel, que uma investigação da Al Jazeera associou a voos usados para transportar cidadãos palestinianos para fora de Gaza, num esquema descrito como “emigração voluntária” e sem os habituais controlos de passaporte. O Movemento Sumar Galicia já exigiu explicações públicas sobre estes vínculos, e o PSOE pediu esclarecimentos sobre quem opera realmente os voos. A Câmara de Santiago nega qualquer apoio económico ou protocolo com a Fly2Galicia e reafirma o seu “compromisso com a paz” e com os direitos do povo palestiniano.
Isto não impede que, em certas rotas, o desvio a Santiago possa sair em conta para quem vive no norte de Portugal. Simulámos preços para voos em janeiro, comparando a rota via Santiago com voos a partir do Porto para os mesmos destinos e período:
- Alicante — Santiago–Alicante desde 80,50€ vs. Porto–Alicante desde 155€: quase metade do preço.
- Veneza — Santiago–Veneza desde 100,50€ vs. Porto–Veneza desde 275€: a maior poupança das três simulações.
- Praga — Santiago–Praga desde 170,50€ vs. Porto–Praga desde 174€: diferença de 4€, que dificilmente compensa o desvio.
Ou seja: para Alicante e Veneza, vale a pena fazer as contas — a poupança pode justificar a viagem até Santiago (mais o custo e o tempo de lá chegar). Para Praga, a diferença é residual e o desvio não parece valer a pena. Como sempre nestes casos, o conselho é o mesmo: compare sempre antes de comprar.





