Fique num InterContinental, veja a sua privacidade devassada num podcast

Crónica
Há uma linha ténue entre contar histórias engraçadas do setor da hotelaria e expor situações de fragilidade de hóspedes.

Aquando da passagem de Taylor Swift por Portugal, lembro-me de ter ligado à então diretora de comunicação do Four Seasons Hotel Ritz Lisboa, onde se presumia que a cantora iria ficar hospedada, para obter uma confirmação. Com a quase certeza de que dali não sairia nada. Não saiu, para minha grande frustração, apesar de já estar mais do que habituada a estas ‘negas’. Eu fiz o meu trabalho, tentar confirmar a notícia, a então responsável pela comunicação do hotel fez o dela: salvaguardar a privacidade dos seus hóspedes, sejam eles o Zé da Esquina ou a Taylor Swift.

E seja o Zé da Esquina, seja a Taylor Swift, seja no Ritz, seja no Ibis Alfragide, a última coisa que uma pessoa que procura um hotel espera ver é a sua estadia transformada numa das “histórias mais inusitadas da hotelaria”.

Foi o que aconteceu – para minha estupefação e horror – no “Be My Guest”. O podcast, uma iniciativa dos hotéis InterContinental, tem como objetivo reunir profissionais do grupo, que partilham, além do seu percurso profissional, histórias inusitadas do mundo da hotelaria. Tendo acompanhado assiduamente o formato desde a estreia, em setembro de 2025, sempre achei que era uma lufada de ar fresco num setor tantas vezes tão sisudo, conservador e demasiado dado a secretismos.

No entanto, o episódio 9, lançado esta terça-feira, 12 de maio, fez-me reequacionar tudo e formular, após ouvir o confrangedor relato, a seguinte pergunta: “quem é que achou que era ok estar a contar isto?”.

Muito resumidamente, e quem estiver interessado em sentir vergonha alheia que vá ouvir o episódio: João Moreira, F&B Operations Manager do InterContinental Porto – Palácio das Cardosas, é apresentado por Mariana Machado, a anfitriã e HR Director Southern Resources, CIS & Georgia, como tendo “uma das histórias mais inusitadas da hotelaria”.

(Spoiler: não é, é só má. Histórias inusitadas em hotéis tenho eu e, se as contar, só eu é que passo vexame).

João Moreira recorda um episódio em que uma família hospedada no hotel pediu que fosse levado azeite ao quarto. O azeite – que, segundo João Moreira, foi ideia de um “colega da receção” (what the fuck?) tinha como propósito facilitar a saída da banheira da senhora. O pedido é bizarro, a situação também. Mas a descrição pormenorizada da história, desde a nudez à banheira cheia de água e à mais do que evidente fragilidade (mental, física) da pessoa em questão torna todo este relato uma atrocidade.

O que me levanta, como frequentadora assídua de hotéis, várias questões. Não é suposto estas pessoas terem formação básica de primeiros socorros ou, pelo menos, terem o bom senso de perceber que, numa situação de possível risco de acidente, ligar para o 112? Quem é que acha que azeite misturado com água e em contacto com um corpo humano é uma boa estratégia para tirar alguém de uma banheira? E, por último, se me acontecer algo semelhante, a minha fragilidade vai tornar-se motivo de chacota num podcast?

“Ainda por cima foi um azeite extra virgem, português, de alta qualidade”, acrescenta ainda João Moreira. Um pormenor altamente relevante, quando se está a revelar que se esteve, juntamente com um colega “com boa aparência”, a tirar uma mulher nua de dentro de uma banheira cheia de azeite e água. Desde os “sons engraçados” ao pedido de “uma grua” para a retirar da banheira, toda a ideia de revelar esta história deprimente é o mais chocante deste episódio.

Conhecendo como conheço o setor de hotelaria de luxo, e todas as permissões e autorizações e picuinhices que são necessárias para entrevistar alguém, seja o barman seja o diretor, espanta-me muito que tenha havido autorização para revelar este episódio. Mas houve e, pelos vistos, devo ser eu que não tenho sentido de humor.

Em 20 anos de jornalismo, fui acumulando muitos relatos, muitas histórias, muitos mitos relacionados com hotéis. Coisas que se contam à boca pequena, coisas que presenciei, outras que vivenciei, outras que me contaram. Por isso deixo aqui alguns tópicos, uns mais divertidos, outros mais sérios, que poderiam ser abordados num hipotético podcast sobre hotelaria:

  • (alegada) exploração de mão de obra;
  • (alegadas) condições sub-humanas de alimentação e alojamento de funcionários;
  • (alegado) assédio de clientes / superiores hierárquicos a funcionários;
  • (alegados) maus tratos físicos, emocionais e morais a funcionários;
  • (alegadas) redes de prostituição de luxo que se movimentam nos circuitos de hotéis de 5 estrelas;
  • (alegada) circulação, tráfico e consumo de (alegadas) substâncias ilícitas para consumo de hóspedes;
  • (alegado) encobrimento de situações de violência de hóspedes.

Ficam as minhas sugestões e a certeza de que terei sérias dúvidas em voltar a ficar hospedada num InterContinental. É que eu sou algo anafada e não quero correr o risco de ficar presa numa banheira e ter de gastar o precioso “azeite extra virgem, português, de alta qualidade” do hotel.

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