McDonald’s em 15 países: micro-turismo é a nova tendência de viagens

Raquel Costa
Viagens
O micro-turismo troca monumentos por supermercados e farmácias locais. A tendência nasce como resposta ao turismo de massas e inclui experiências únicas, locais fora dos roteiros e até souvenirs bizarras.

O micro-turismo (tradução livre do inglês “Tiny Tourist”) é a tendência de viagem que desloca o interesse do turista dos monumentos e pontos turísticos consagrados para detalhes aparentemente banais de um destino: o supermercado, a farmácia, a loja de conveniência, tipos de batatas fritas locais. Em vez de perseguir a vista instagramável, o micro-turista procura o modo de vida de um lugar e o contraste que este oferece em relação ao seu. 

O conceito é definido no “The Tiny Tourist Report“, publicado pela revista britânica de criatividade It’s Nice That. Segundo o relatório, “é um desejo poderoso experimentar o modo de vida padrão de um lugar, e ver como contrasta com o nosso”. A ideia nasceu, em parte, de uma experiência pessoal da própria autora do relatório, a jornalista Liz Gorny: antes de uma viagem a Seul, foi confrontada por uma colega de casa com um vídeo no YouTube que fazia a visita guiada a um 7-Eleven coreano. O que lhe pareceu ridículo tornou-se um hábito — Gorny confessa ter passado a última noite em Seul, e várias antes dessa, sentada à porta de um 7-Eleven, satisfeita apenas com a sua seleção de snacks.

Isto não é um fenómeno isolado. Numa sondagem conduzida pela equipa da It’s Nice That, 49% dos inquiridos identificou as “experiências locais do dia a dia” como o que torna uma viagem verdadeiramente significativa, contra apenas 4% que apontou a visita aos locais considerados obrigatórios. O relatório regista ainda que 53% dos inquiridos raramente age depois de ver um anúncio de viagens tradicional e 29% ignora-o por completo — um sinal, segundo o documento, de que a publicidade convencional, centrada no espetáculo e na vista aérea perfeita, já não corresponde ao que motiva a decisão de viajar.

Uuma resposta ao turismo de massas

O relatório situa o surgimento do micro-turismo como reação direta ao esgotamento do modelo de turismo de massas. Em 2025, as viagens não só recuperaram os níveis pré-pandemia como os ultrapassaram, mas o acolhimento a quem viaja tem-se tornado cada vez mais hostil. Entre comportamentos turísticos desadequados, o aluguer descontrolado de alojamento para turistas e a ação de algoritmos que concentram multidões nos mesmos destinos, a tensão entre visitantes e comunidades locais tem aumentado de forma consistente, segundo o documento.

Vários episódios recentes ilustram esse esgotamento. Em dezembro de 2023, um evento de cânticos de Natal na Columbia Road, em Bethnal Green (Londres) — tradição de bairro com mais de uma década, que habitualmente reunia algumas centenas de pessoas — tornou-se viral no TikTok. Mais de sete mil pessoas concentraram-se na estreita rua numa única noite; foram registados ataques de pânico, a polícia interveio e a igreja local cancelou as restantes celebrações, alegando que a comunidade se tinha tornado “perigosamente sobrelotada”, nas palavras da reverenda Heather Atkinson, citada no relatório.

Casos semelhantes verificaram-se noutros pontos do globo. Em Fujikawaguchiko, no Japão, os residentes construíram uma barreira física para bloquear uma vista icónica do Monte Fuji, depois de a localidade ser invadida por turistas que procuravam apenas a fotografia perfeita, sem gerar receita para o comércio local. Em Santorini, 11 mil passageiros de cruzeiro desembarcaram no mesmo dia em julho de 2024, ao ponto de o município ter pedido publicamente aos residentes que permanecessem em casa.

Ayla Angelos, autora de outro capítulo do relatório, resume o problema: “não é que as pessoas estejam a descobrir novos lugares, é que o motor de recomendações se tornou uma faca que golpeia coisas muito delicadas em todo o mundo.” Segundo Angelos, o algoritmo está otimizado para gerar interação, não para proporcionar experiência, e é indiferente ao facto de um destino já ter sido “descoberto” por dezenas de milhares de pessoas na mesma semana. É neste contexto, de sobrelotação de destinos e de crescente desconfiança face à publicidade tradicional, que o relatório situa a ascensão do micro-turismo: uma alternativa que celebra o disperso e o pequeno, em vez de direcionar todos os viajantes para o mesmo ponto do mapa.

Como ser um micro-turista em 11 simples passos

Com base nas respostas recolhidas pela It’s Nice That junto do seu público, e num tópico do Reddit com quase 600 comentários citado como uma das inspirações do relatório, seguem-se exemplos de atividades associadas ao micro-turismo:

1. Visitar o McDonald’s local. Um dos exemplos citados no relatório é o de um viajante que já visitou um McDonald’s em mais de 15 países só para comparar o menu… mesmo que seja preciso ir até ao Círculo Polar Ártico para visitar o McDonald’s mais a norte do mundo.

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2. Fazer compras num supermercado estrangeiro: comparar preços, marcas locais e comprar produtos estranhos como souvenir.

3. Visitar uma parafarmácia local: hábito comum entre entusiastas de beleza em relação às farmácias francesas e coreanas, por exemplo.

4. Comprar snacks numa loja de conveniência: como o 7-Eleven ou o já famoso CU da Coreia do Sul.

5. Ir à lavandaria local para lavar roupa durante a viagem.

6. Correr numa cidade nova, em vez de a percorrer apenas em transporte turístico.

7. Passear por uma zona residencial, sem destino marcado, a observar jardins e fachadas.

8. Provar sabores locais de batata frita ou outros snacks que não existem fora do país.

9. Colecionar souvenirs não convencionais: pedras, bilhetes de museus ou concertos, camisolas de clubes de futebol locais, isqueiros com o nome do destino ou fotografias de animais encontrados pelo caminho.

10. Conversar com desconhecidos e conhecidos em vez de seguir apenas recomendações de vlogs e vídeos virais — o relatório nota que as histórias de viagem mais memoráveis tendem a nascer de uma conversa, não de um algoritmo.

11. Procurar a opinião de quem vive no destino, em alternativa às rotas mais partilhadas online.

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