Aninhado nas galerias de um prédio, numa zona calma (e com muito estacionamento, pormenor importante) da Boavista, o Kaigi é um dos restaurantes mais entusiasmantes atualmente no Porto. O espaço do grupo Euskalduna estreou em junho o menu de verão, bem como iniciativas como os jantares vínicos e as noites dedicadas ao izakaya (conceito equivalente à tasca à portuguesa) e aos nigiris (pequena base de arroz avinagrado moldada à mão, coberta por uma fatia de peixe cru).
Os eventos acontecem até ao final de julho, mas agosto também é um bom mês para visitar o Kaigi (se conseguir uma reserva, claro). Os lugares são poucos, até porque se come mesmo em frente ao balcão, com os pratos a serem preparados no momento, e a composição, história e até sugestão de degustação a serem-nos oferecidas enquanto tomamos as peças nas mãos (ou nos hashi).
Na nossa visita ao Kaigi, tivemos a oportunidade de experimentar o menu omakase. E para que este texto não se torne um puzzle indecifrável de termos em japonês, vamos já explicar o que é: omakase é uma refeição em que o cliente entrega ao chef a escolha do que vai comer. E, se for ao Kaigi e depois regressar (porque vai querer regressar) e trocar experiências com amigos, depressa vão perceber que há pratos em comum mas que nenhum dia é igual ao outro. A não ser a sobremesa, que se tem mantido na carta desde o início.
A equipa, constituída por apenas cinco pessoas, é liderada por Nuno Brás, chef de cozinha, coadjuvado por Pedro Moreno (sushiman), Martin Lois (sommelier), Paulo Silva (cozinheiro) e Kumar Sanjev (copeiro). Executam, ao longo de cerca de 90 minutos, uma dança meticulosamente coreografada, criando espaço para que cada um dos comensais saboreie as propostas, converse, caso esteja acompanhado, e ainda consiga acompanhar as explicações de cada momento.
Por ser um espaço onde se conjugam sabores e técnicas das gastronomias japonesa e portuguesa, é bem capaz de ser o sítio certo para quem não tem a melhor das perceções sobre “sushi”. Ou para os que já estão num nível tão avançado que não aceitam menos do que o melhor.
Nós não somos snobes do sushi, gostamos é de comer e que nos tratem bem. E, por isso, a experiência neste restaurante nascido em 2023 não podia ter corrido melhor. Optámos por uma refeição sem álcool porque estávamos a conduzir, e saboreámos um delicioso chá verde frio.
Começámos com lírio com escabeche, refrescante, com pepino e a portugalidade no sabor acebolado. Incrível. Seguimos depois para um gunkan de ouriço do mar, seguido de outro, mas de lula. E, tal como nos explica Pedro Moreno, estas peças são para saborear de uma dentada só.
Um tártaro de robalo, inspirado nos tradicionais pratos “alimados” portugueses, traz acidez e frescura. Depois, um momento mais opulento, uma tempura de carapau e curgete com kimchi. A gordura do peixe tão tipicamente português com o acompanhamento fermentado, oriundo da Coreia, cria uma combinação perfeita entre untuosidade e picante.
Fumado e com alusão a uma bela churrascada, kushiyaki de cachaço de porco, tosta com pimento fermentado e tsukemono de cereja de Resende. A carne suína, grelhada na robata, cria uma pausa aconchegante e saborosa, pontuada com a acidez da cereja. Perfeição.
Ao nigiri de enxaréu dos Açores, seguiu-se o nigiri de corvina e, depois, o de akami (lombo de atum). Seguimos com entusiasmo as dicas para aprender a saborear as peças na sua plenitude: o peixe toca primeiro na língua, só depois o arroz. O temaki de otoro (parte mais marmoreada e rica do atum) é um dos clássicos do Kaigi e é uma explosão de sabor.
Antes da sobremesa, o prato mais inusitado e, paradoxalmente, mais familiar, o tsukune e arroz de frango. Tendo a técnica do yakitori, é recriado um tradicional arroz de cabidela (mas sem o sangue, calma), acompanhado por um suculento croquete galináceo. A frescura e a acidez do prato original são recriadas através de uma salada de cebolete queimado. E, para a sobremesa, queijo e marmelada. Ou melhor, mochi, pera e queijo da ilha, uma versão do clássico Romeu e Julieta, mas à la Kaigi.
O menu, composto por sete momentos (entrada, snack, robata, nigiris, temaki, prato principal e sobremesa), tem o valor de 75€ (ou 140€ com harmonização). Pode ser enriquecido por pratos extra, que representam um custo adicional.
Kaigi
R. de Eugénio de Castro 226, 4100-225 Porto
Reservas: (+351) 938 410 124; geral@kaigiporto.com ou através do link
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