Mudança da hora. O país com mais fusos horários não é o que imagina

Raquel Costa
Notícias
A mudança da hora volta a pôr o tema dos fusos horários na mesa — mas a verdade é que o sistema está longe de ser linear. Há mais horários do que parece e o país com maior dispersão pode surpreendê-lo.

Este domingo, 29 de março, inicia-se oficialmente o horário de Verão.  Se a mudança da hora lhe desregula o sono e o humor, talvez seja melhor não pensar muito no resto do mundo. É que a ideia de que o planeta funciona com 24 fusos horários certinhos — um por cada hora do dia — é, no melhor dos casos, ingénua.

Na prática, o tempo é uma construção arbitrária, cheia de exceções, desvios e decisões políticas que ignoram a lógica geográfica sempre que isso dá jeito. E há um dado que costuma apanhar quase toda a gente desprevenida: o país com mais fusos horários do mundo não é nem os Estados Unidos, nem a Rússia. É a França.

A França soma 12 fusos horários diferentes — mas não por causa do seu território europeu. A explicação está na sua geografia dispersa: o país mantém territórios espalhados por vários oceanos, herdados da História, e cada um vive na sua própria hora.

Nas Caraíbas, há regiões como a Guadalupe e a Martinica. Na América do Sul, a Guiana Francesa. No Índico, a Reunião e Mayotte. E no Pacífico, territórios como a Polinésia Francesa ou Nova Caledónia. Resultado: ao mesmo tempo, pode ser manhã num território francês e madrugada noutro. Mais do que um país, é quase uma linha do tempo espalhada pelo mapa.

Logo atrás vêm os Estados Unidos e a Rússia, ambos com 11 fusos horários — mas com uma lógica mais contínua. No caso francês, é o mundo em versão fragmentada.

O mundo não tem 24 horas (tem mais)

Aprendemos que o planeta está dividido em 24 fusos horários, porque a Terra demora 24 horas a dar uma volta completa. Cada fuso corresponderia a 15 graus de longitude. Bonito. Simples. Errado. Na prática, existem cerca de 37 horários diferentes. Porque há países que decidiram complicar.  A Índia usa UTC+5:30. O Nepal foi mais longe e escolheu UTC+5:45. Meias horas. Quarenta e cinco minutos. Porque não?

Depois há o caso oposto: países que podiam ter vários fusos horários, mas optam por não ter. A China, com dimensão suficiente para cinco fusos, usa apenas um (UTC+8). O resultado é uma espécie de ficção coletiva: há regiões onde o sol nasce às 10h da manhã, mas oficialmente são 8h — porque é essa a hora de Pequim.

Se acha estranho, há mais. Portugal está no mesmo fuso horário que o Reino Unido e a Irlanda no inverno — o que faz sentido geográfico. Já a Espanha e a França vivem no horário da Europa Central, mais alinhado com a Alemanha do que com o seu posicionamento real no mapa. É uma decisão histórica. E, como muitas decisões históricas, ficou.

O mundo onde já é amanhã (ou ainda ontem)

Portugal está em UTC+0 no inverno. A partir daí, o mundo estica-se em duas direções: Até UTC-12 (mais “atrasado”)
Até UTC+14 (mais “adiantado”). Isto cria uma diferença máxima de 26 horas. Ou seja: há sítios onde já é amanhã enquanto noutros ainda é ontem. Ao mesmo tempo. Em algumas ilhas do Pacífico, pode literalmente entrar num avião e aterrar no dia seguinte — ou voltar ao passado, dependendo da direção.

No meio disto tudo, a mudança da hora parece quase… modesta. Uma pequena manipulação semestral num sistema que, no fundo, já é tudo menos natural. Ainda assim, basta adiantar ou atrasar o relógio 60 minutos para o corpo entrar em greve silenciosa durante dias. O que talvez diga mais sobre nós do que sobre o sistema. Afinal, se uma hora já nos baralha, talvez seja melhor não pensar muito num mundo onde o tempo muda de país para país, de meia em meia hora — e, às vezes, por pura decisão política.

Principais siglas de fusos horários
Principais siglas de fusos horários
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