Porto a trabalhar — e a comer bem: 2 hotéis e 4 restaurantes a não perder

Raquel Costa
Crítica
A TRAVEL MAGG passou três dias no Porto em trabalho. Dormimos em dois hotéis MOOV, almoçámos e jantámos em quatro restaurantes — dois deles dentro de hotéis. E confirmámos o que já sabíamos sobre a hospitalidade portuense.

Se é para ir trabalhar para o Porto, que seja em bom. Com o pretexto de conhecermos os MOOV Apartments Boavista, a mais recente aposta da marca do grupo português na Invicta, passámos três dias a trabalhar numa cidade conhecida pela sua hospitalidade.

É um cliché dizer que no norte as pessoas são mais hospitaleiras? Talvez. Mas poder almoçar e jantar bem no Porto — e dormir ainda melhor — tem um gostinho especial. Entre dormidas e trabalho em dois hotéis MOOV, estrategicamente situados perto de transportes públicos, almoços rápidos mas deliciosos e jantares reconfortantes, três dias produtivos na cidade passaram a correr.

Quer um guia dos sítios por onde passámos? Vamos a isso.

MOOV Apartments Boavista: independência total no centro do Porto

Enquanto mulher que fica frequentemente sozinha em hotéis, há qualquer coisa de muito reconfortante na perspetiva de uma porta de entrada que se abre apenas com um código. O acesso ao MOOV Apartments Boavista é precisamente assim: só se chega ao lobby tocando à campainha ou inserindo o código.

A partir daí, é só desfrutar de apartamentos espaçosos, com cozinha totalmente equipada, uma mesa confortável para trabalhar ou fazer refeições, e um dos duches mais potentes que já experimentámos. Apesar de estarmos em plena Avenida da Boavista, uma das artérias mais movimentadas da cidade, a insonorização é tão boa que o silêncio é quase total. Quando quisemos ver as vistas, foi só abrir as janelas e ir à varanda sentir a pulsação da cidade.

Veja o apartamento onde ficámos

MOOV Apartments Boavista - TRAVEL MAGG

Ficámos especialmente agradados não só com o tamanho mas também com o conforto da cama. Podem ser apartamentos, mas o colchão é digno de um hotel de cinco estrelas.

Inaugurados no verão de 2024, os MOOV Apartments Boavista são uma das mais recentes apostas do grupo português Endutex no Porto. A unidade, situada junto ao Mercado do Bom Sucesso e à Casa da Música, resulta da reabilitação do antigo Centro Comercial Boavista. Há estacionamento disponível mas, com o metro a cerca de 200 metros e transportes à porta, a localização convida a deslocações a pé.

Os MOOV Apartments Boavista marcam a evolução da marca para o conceito de aparthotel, pensado sobretudo para estadias prolongadas. O edifício conta com 28 apartamentos de tipologias T1 e T2, direcionados para famílias, profissionais em viagem de negócios ou nómadas digitais que procuram maior autonomia durante a estadia. Cada unidade inclui kitchenette equipada, zona de refeições, casa de banho privativa, smart TV e espaço de trabalho. Entre os serviços disponíveis estão lavandaria self-service, sala de trabalho mediante reserva, estacionamento com carregamento elétrico e pequeno-almoço em formato box. Preços a partir de 87€ (só alojamento), de acordo com simulação no site oficial.

MOOV Apartments Boavista

MOOV Apartments Boavista
MOOV Apartments Boavista
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Roast ao almoço. Delicioso, prático e com preços apetitosos

“Onde há fumo, há Roast.” O lema do restaurante liderado pela chef Carla Oliveira é levado a sério na carta. A rotisserie é o instrumento basilar dos pratos e o frango a estrela da ementa, embora a cozinha de tacho — reconfortante e que agrada a todos — seja igualmente um dos grandes trunfos da casa.

Situado numa zona de escritórios e integrado no edifício do Holiday Inn Express Porto, com entrada independente, o Roast é daqueles restaurantes de hotel que conseguiu conquistar clientela fiel e não hóspede — como pudemos comprovar numa atarefada hora de almoço.

Começámos com uma salada de bacalhau e grão de bico (6€), disponível apenas ao jantar, mas que provamos por sugestão da equipa. Foi uma das mais incríveis que já comemos, cheia de texturas e bem temperada. Os croquetes ROAST (4€), também do menu do jantar, estavam igualmente deliciosos.

O menu de almoço é propositadamente simples e acessível, com escolhas limitadas para que ninguém fique minutos a decidir. Os pratos principais começam nos 9,50€ e, por 10,50€, é possível escolher uma proteína cozinhada na rotisserie. O frango é francamente maravilhoso. A costela mendinha com coleslaw também satisfez, mas o prato que mais surpreendeu foi o Nosso Arroz de Cogumelos: carregado de umami e com um sabor ligeiramente fumado por ter sido finalizado na rotisserie, combina a intensidade dos cogumelos com a crocância do arroz tostado. Repetíamos.

Roast - TRAVEL MAGG

Está bem que sobremesa não é para comer todos os dias, mas a nossa missão no Roast foi provar para lhe dizer o que é bom. E, se gosta de chocolate, o chocobrownie (2€) é imperdível. Para quem gosta de sobremesas mais exóticas e com menos açúcar, a proposta que nos fez ficar fãs do Roast: abacaxi assado com especiarias (3,5€). Só disponível na carta do jantar, esta sobremesa é elegante, cheia de sabor e leve. Ficámos rendidos.

Carla Oliveira, chef do Roast
Carla Oliveira, chef do Roast

Criada num colégio de freiras, Carla Oliveira ganhou desde cedo o gosto pela cozinha. Iniciou o caminho académico para se tornar médica, mas depressa percebeu que os tachos eram a sua verdadeira vocação. “Fui para a escola de hotelaria, fiz o curso de cozinha mas, sendo mãe, fiquei mais perto de casa. Larguei a cozinha, trabalhei em logística e depois fui convidada pelo chef do Porto Palácio para ir para lá”, recorda a poveira.

Passou por vários hotéis até chegar ao Roast. “A comida é a que gosto de fazer, mais caseirinha”, confessa. “A rotisserie acaba por ser uma churrasqueira mas sem fogo e o processo de confeção demora mais tempo. A comida fica com aquele sabor fumado, o que também foi novidade para mim”, explica. Com orgulho, conta que desde que chegou ao restaurante conseguiu conquistar clientes fiéis aos almoços.

 

Roast
Roast
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SoMos Restaurant & Lounge. Conforto cosmopolita à moda do Porto

“Foste ao SoMos? Quando eu trabalhava ali na zona, aquilo era praticamente a minha cantina!” Quando um portuense diz isto, é sinal de que o restaurante foi bem recomendado. A dez minutos a pé dos MOOV Apartments, também na Boavista, fica o Crowne Plaza Porto. É mais um hotel, sim — mas com entrada independente pela avenida, nem se dá conta que se está a jantar paredes meias com o lobby de um cinco estrelas.

O espaço, amplo e com iluminação certa para um jantar descontraído, convida a comer com vagar. Aceitámos as sugestões da equipa e fizemos jus ao lema “o conceito é a partilha”. Porquê comer um prato sozinho quando se podem dividir vários? Começámos pelos deliciosos pastéis de massa tenra (11€) e pela pecaminosa tempura de cebola e cogumelos shiitake (12€). O polvo assado com batata doce, texturas de alho francês, brunesa de tomate, azeitonas e ervas (29€) estava perfeitamente cozinhado. A posta de vitela com batata rústica e legumes grelhados (24€ meia dose; 40€ dose inteira) também deixou boa memória. Para rematar, um leite creme queimado com açúcar de violetas (5€) passou o teste com distinção.

SoMos Restaurant & Lounge - TRAVEL MAGG

À TRAVEL MAGG, Jorge Sousa, chef do SoMos Restaurant & Lounge, explica as razões do sucesso do restaurante junto de locais e não hóspedes. Conseguimos comunicar o SoMos como restaurante e não como restaurante de hotel. O facto de ter entrada direta pela Avenida da Boavista também ajuda. E por último, o facto de ser informal, das pessoas se sentirem bem e terem uma experiência com personalidade, mas descomplicada”.

Jorge Sousa, chef do SoMos Restaurant & Lounge
Jorge Sousa, chef do SoMos Restaurant & Loungecréditos: delfina brochado

Lascas de bacalhau e carnes grelhadas — “desde a posta de vitela ao naco de vazia Angus e o lombo de novilho grelhado com bearnês” — são os pratos incontornáveis da casa, que aposta numa carta estável para satisfazer os habituais. “Tentamos ir ao encontro do gosto dos nossos clientes, dentro da personalidade por detrás de todos os pratos. Nos últimos anos, introduzimos mais pratos individuais, evoluímos bastante as sobremesas e optámos por um menu do dia forte e consensual”, salienta.

SoMos Restaurant & Lounge

SoMos Restaurant & Lounge 
SoMos Restaurant & Lounge 
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MOOV Hotel Porto Centro: prático e perto de tudo

ubindo a Rua de Santa Catarina até à Batalha, não há que enganar. O MOOV Hotel Porto Centro fica mesmo ao lado da Igreja de Santo Ildefonso e, no que toca a espetacularidade arquitetónica, rivaliza com o edifício do século XVIII e a sua icónica fachada revestida a azulejos.

O hotel ocupa um edifício Art Déco onde funcionou a antiga Hospedaria e Café Águia d’Ouro, fundada em 1839, e onde mais tarde esteve o Cinema Águia d’Ouro, uma das salas mais emblemáticas da cidade. Preservando a memória portuense, a decoração inspira-se no universo do cinema, com referências que percorrem todo o espaço.

Com 125 quartos, é uma opção prática e acessível para quem pretende ficar alojado no centro histórico. A poucos minutos a pé encontram-se a Sé do Porto, a Livraria Lello e o Cais da Ribeira, além de ligações próximas ao metro e à estação de São Bento. A receção está aberta 24 horas, o Wi-Fi é gratuito e o pequeno-almoço em buffet — que tivemos oportunidade de experimentar — é bastante simpático para um hotel nesta faixa de preços. Há ainda estacionamento privado e quartos insonorizados, para uma noite descansada mesmo no coração da cidade. Preços a partir de 72€ por noite (só alojamento), de acordo com simulação no site oficial.

MOOV Porto Centro

MOOV Hotel Porto Centro
MOOV Hotel Porto Centro
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Holy Sandwich Shop. O croissant mais pecaminoso do Porto

Se um spot tem fila à porta, é porque é bom. E se essa clientela mistura locais com turistas, lado a lado, a devorar um hambúrguer suculento, então o cenário é perfeito. Foi o que encontrámos à hora de almoço no Holy Sandwich Shop.

Nascido em São Paulo em 2013, este boteco de hambúrgueres chegou ao Porto em 2020. Thiago Tavares, filho de pai português, escolheu a cidade para regressar às raízes familiares e abriu o Holy Sandwich Shop. O que se come aqui? Coisas pecaminosas, a começar pelas coxinhas de pastrami (9,50€) — que fazem uma refeição por si só —, passando pelo premiado Pony Line: 200g de carne dry aged com pelo menos 60 dias, cheddar inglês a derreter na perfeição e um melaço de bacon que cola à alma (19€). Este hambúrguer ficou em 3.º lugar nos The World’s 25 Best Burgers, distinção atribuída pelos Burgerdudes.

Mas é o Franz (dois smash burgers de 70g, cebola na chapa e maionese de negro trufado servido no croissant da casa, 14,50€) que verdadeiramente impressiona — numa combinação genial de potencial instagramável, choque visual e explosão de sabor. É um hambúrguer, mas também é um croissant. É uma facada na alma da nutricionista, mas também é uma ópera para os amantes de pratos absurdamente improváveis. Se os preços estão a assustar, importa referir que, além do tamanho generoso dos hambúrgueres, todos vêm acompanhados de uma quantidade considerável de batatas fritas. Das boas.

Holy Sandwich Shop - TRAVEL MAGG

Mas voltemos ao Franz. Quem raio é que se lembrou disto? Filipe Fernandes, chef do Holy Sandwich Shop, explica.  “O Franz nasceu da junção do smash onion burger – inspirado no famoso Oklahoma de George Motz – com croissants franceses, já que estamos numa onda francesa. A maionese de alho negro surgiu inicialmente para um burger especial que tinha criado e acabou por encaixar perfeitamente nesta combinação. O resultado foi um equilíbrio entre técnica clássica americana e elegância francesa”, conta.

Numa era em que tudo parece criado para o feed, Filipe garante que o fator Instagram é “consequência, não objetivo”. “Surge naturalmente quando se trabalha com ingredientes de qualidade e com uma excelente execução. Privilegiamos fornecedores de confiança, frescura e consistência, porque a base de tudo é o sabor — a estética vem depois.

Com o pastrami (carne curada, temperada, fumada e depois cozida a vapor, cortada em fatias finas) a viver um hype na cena gastronómica em Portugal, o Holy Sandwich Shop foi pioneiro no uso deste produto. “Em 2016, quando começamos a produzir o nosso próprio pastrami, não imaginávamos que ia tomar esta proporção. No Holy, a experiência pode começar com as coxinhas ou com as pastrami fries, mas o que distingue as nossas propostas é mesmo o cuidado na preparação e a intensidade de sabor que só um pastrami feito por nós consegue oferecer”, salienta Filipe.

Sem previsão para a abertura de um espaço em Lisboa, o Holy Sandwich Shop só pode ser visitado no Porto. Um conselho: vá com fome e com companhia.

Holy Sandwich Shop

Holy Sandwich Shop
Holy Sandwich Shop
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L’Égoïste Bar & Restaurant. Rosas de salmão e caviar doce

“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”, escreveu Gertrude Stein. Mas pode uma rosa ser salmão? No L’Égoïste Bar & Restaurant pode — e é deliciosa. Esta flor feita de salmão, pickle de nabo e ponzu de sudachi (20€) foi o primeiro prato que provámos. O restaurante do piso térreo do Renaissance Porto Lapa Hotel é o destino perfeito para fechar em beleza uma estadia no Porto.

Ainda antes de começar a provar as iguarias do chef Miguel Pinto, fomos surpreendidos com um cocktail original: o Beterraba (15€), que não tem beterraba. Os sabores deste vegetal terroso são recriados com Bombay Sapphire, Pinot Noir, Cacau, Cassis, Baunilha, Batata e Umeboshi.

O Carpaccio de cogumelos Portobello com Caju, Rúcula e Parmesão de 30 meses (16€), carregado de umami, foi uma explosão de sabor. O Terra e Mar — Robalo, Aipo, Bimis, Kale Crocante e Molho Champagne (26€) —, mais suave, também conquistou. Os Short Ribs com Courgette, Tomate Cherry e molho Barbecue (30€) desfaziam-se com o toque do garfo. O Mergulho de chocolate (12€) foi a sobremesa perfeita para os amantes de cacau, mas o momento mais surpreendente ficou guardado para o fim: o caviar de tiramisu (13€). Esta criação que só desfaz dúvidas quando provada emula visualmente uma lata de caviar sobre gelo — na realidade, é Namelaka de Chocolate, Cremoso de Queijos e Café. E é maravilhoso.

L’Égoïste Bar & Restaurante - TRAVEL MAGG

Os feiticeiros por detrás destas criações são Miguel Pinto, chef, e Bárbara Marafona, chef de pastelaria. O percurso internacional de Miguel Pinto, 30 anos, trouxe uma visão mais global à carta, estreada há um ano. No L’Égoïste desde novembro de 2024, o chef incorpora ingredientes locais — do robalo de Matosinhos ao lavagante, passando pelo leitão — numa abordagem contemporânea. “Para a Primavera, vamos mudar para pratos mais consensuais, mas com mais força. Vamos também introduzir o nosso menu degustação”, revela. Bárbara Marafona, que fez o percurso ascendente na cozinha do L’Égoïste desde a pré-abertura, assumiu em janeiro a função de chef de pastelaria. “Estamos cá para evoluir. Temos uma equipa de pastelaria bastante grande e muito estável, o que é ótimo”, realça.

L’Égoïste Bar & Restaurante

L’Égoïste Bar & Restaurante
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* a TRAVEL MAGG visitou os hotéis e restaurantes a convite dos espaços

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